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domingo, 28 de março de 2010

the dillinger escape plan – option paralysis


É um dado garantido que um mau disco, ou até mediano, daqui dificilmente sairá. O estatuto que os The Dillinger Escape Plan granjearam álbum após álbum assim o dita.
O início deste quarto é um perfeito prenúncio de que vem aí outra obra-prima. “Farewell, Mona Lisa” é um excelente reflexo do que é a banda hoje, ao variar a impetuosidade descontrolada com momentos de puro êxtase melodioso de proporções, não raras vezes, épicas. O álbum desenrola-se na fúria habitual destes, mas não vulgar, que nos põe pela milésima vez a cabeça a latejar e a desencadear reacções corporais pouco sãs, mas também esbarra-se como nunca antes na voz limpa e melosa do Greg Puciato e em segmentos do tipo “depois da tempestade, vem a bonança”, se bem que a ordem de acontecimentos nem sempre é essa. Apesar da maior variedade e variação intra-temas, o mesmo não se sente quando os comparamos entre eles. Há menos espaço para a experimentação, não há temas instrumentais e completamente desconectados da realidade ou de algum tipo de senso, embora existam nuances neste capítulo, como é o aparecimento do cada vez menos tímido piano em algumas músicas. É por isso um álbum mais homogéneo do que seria de esperar o que não é negativo nem positivo por si só.
A esquizofrenia de sons e de estados de alma com que o grupo me violenta continua, porém, bem como os momentos que me deixam de queixo caído, envoltos numa cápsula desta vez mais negra, estranha e sombria. Cada vez que ouvi o álbum, gostei mais dele, embora não me tenha impactado como os outros. No contexto da carreira dos TDEP acho-o menos inspirado, com menos momentos memoráveis, o que não é suficiente para me deixar com um amargo de boca que seria de todo injusto dada a grandeza musical que aqui se ouve.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

the dillinger escape plan - miss machine (2004)

Novo espaço! Para escrevermos sobre aqueles álbuns que veneramos, que sabemos de trás para a frente e que nos marcaram por uma razão ou por outra. É um exercício egocêntrico, recheado de hipérboles, obtusidades e de sensatez vesga, que nos vai dar a sua dose de gozo.

Estávamos numa altura em que lá ia eu, ainda com meia dúzia de pelos na cara, comprar religiosamente a Loud!, a única revista portuguesa sobre Metal e variantes (ainda hoje o faço, com mais pelos, mas menos devoto). A secção de críticas a álbuns recém-lançados era sempre lida com uma atenção redobrada e entusiasta. Os fóruns na net, os que tinha conhecimento, eram imberbes e algo incompletos, assim como os blogs, que em nada se comparam em número em relação aos dias de hoje. Este era, assim, um ponto de passagem útil no que tocava a conhecer novas bandas. Foi assim que me deparei com o “Miss Machine” de uns tais de The Dillinger Escape Plan. O escriba usava com propriedade o termo inovação, e mencionava um leque de estilos que iam, desde o rock, ao hardcore, passando pelo metal progressivo e atmosférico, pelo noise e também pelo jazz. Todos estes termos na mesma crítica parecia-me absurdo.
Mas não havia palavras que me preparassem para o que aí vinha. Foi um abalo nos meus princípios. Não havia regras, não havia um padrão, tudo acontecia ao mesmo tempo e a uma velocidade que me transcendia. Era intenso, violento, e sobretudo esquizofrénico. Fiquei azamboado à primeira, e nem sequer sabia muito bem dizer se tinha gostado ou não. À segunda já o sabia, à terceira fiquei a gostar mais um bocado, e assim sucessivamente, até começar a amá-lo. Comecei a ler nas entrelinhas e, aparte da violência desnudada, havia muitos pormenores a descobrir e um sentido melódico muito mais apurado do que seria de esperar.
Embora não seja, para mim, o melhor álbum deles (sou capaz de gostar mais do “Ire Works”), foi aquele que mais me marcou e que me “abriu” os ouvidos para outras coisas ditas menos convencionais. O artigo da Loud! dizia: “What are we supposed to do? Gostar, inevitavelmente. Porque é isso que se faz quando nos é apresentado um produto completo, capaz de elevar, acima do concebido, o conceito que o nosso humilde conhecimento tem de intensidade e música extrema”. Não o teria escrito melhor.

terça-feira, 30 de junho de 2009

coalesce – ox


Lodo. Não estão menos de 35 graus, e o ar parece tornar-se rarefeito, a ponto da respiração exigir algum esforço. De forma completamente aleatória, socos e biqueiros vêm a mim de onde e quando menos espero. Dores lancinantes e o sangue a prender-se na garganta. Este álbum é um sufoco que me deixa abismado.

Os Coalesce já levam uns bons 15 anos disto, embora grande parte deles não tenham sido propriamente produtivos. Por entre separações, regressos e mudanças de line-up, este “Ox” é apenas o quarto longa-duração da carreira e o primeiro em 10 anos, sendo que 3 deles foram de total inactividade.
Pioneiros no toca a juntar hardcore com metal, mas de uma maneira única, arrisco dizer, este novo álbum traz-nos uma raiva labiríntica misturado com um Sludge tão cru e seco que dói. O primeiro tema, “The Plot Against My Love”, é um bom exemplo do que vos falo e um início perfeito. As músicas seguem tudo menos uma estrutura linear. Constantes mudanças de ritmo, como se toda a banda padecesse de algum distúrbio nervoso, fazem de mim gato-sapato. A distorção não é meiga com ninguém, a roçar às vezes o Noisecore, é bem capaz de desfazer cérebros em papa. O baixo, meus amigos, o baixo! Quase tão perceptível quanto a guitarra, escava uma vala só para si. Há que esperar o inesperado nestes 35 minutos, a ponto de termos dois temas instrumentais e acústicos, cirurgicamente arrumados no corrupio de fúria. Também influências Country e Blues, bem visíveis no início da “Wild Ox Moan”, estão um pouco por todo o lado. Quase todos os temas têm algo de relevante a acrescentar, e apenas isso, diz bem do monstro que este álbum é.

“Ox” consegue ser um bafo de ar quente e sujo, e ao mesmo tempo, uma lufada de ar fresco no espectro da música pesada. O que não deixa de ser uma continuação lógica do que faziam há 10 anos atrás, é ainda, nos dias de correm, atípico e original. Se esta review não foi suficiente para vos fazer ouvir isto, talvez o 10/10 da Decibel o faça. Regresso do ano.