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quarta-feira, 16 de junho de 2010

nachtmystium - addicts: black meddle pt.II


Nothing hurts more than being born.
A minha expectativa em relação a este álbum era imensa e foi de certa forma gorada. Em parte porque, em busca da tão famigerada ruptura com o restante black metal, seus limites e preconceitos, os Nachtmystium criaram algo que só muito dificilmente caberá nesse parâmetro. Não estava à espera, e o primeiro contacto com o disco foi doloroso. Em maior parte porque este “Addicts” fica muito longe do anterior e obra-prima “Assassins”, em termos de inspiração.

A orientação deste álbum é muito mais rockeira, pop até, com canções directas e extremamente orelhudas, onde se misturam elementos industriais, electrónicos e algumas reminiscências do metal que lhes assentou ao longo dos anos. Mas não é isto, por si só, que me leva a torcer o nariz. Falta-lhe adrenalina, rasgos de alguma coisa que realmente me pulse o sangue. Não encontro o lado psicadélico que pautou o “Assassins”. Falta coesão, e os poucos blast beats soam-me deslocados do resto.
Há bons momentos, como é o caso da “Addicts” e da alienada “Blood Trance Fusion”, o melhor tema do álbum, que conta com pormenores tão estranhos como bem conseguidos. O registo vocal do Blake manteve-se áspero e encaixa surpreendentemente bem em campos mais luminosos. A produção foi trabalhada, e de certa forma ouvir o álbum pelos headphones potencia a descoberta do mesmo.
O disco acaba por ser simpático, mas provavelmente dirigido para o target errado. Se o “Assassins” foi um passo audaz, este mais audaz foi. Talvez em demasia.

domingo, 28 de março de 2010

the dillinger escape plan – option paralysis


É um dado garantido que um mau disco, ou até mediano, daqui dificilmente sairá. O estatuto que os The Dillinger Escape Plan granjearam álbum após álbum assim o dita.
O início deste quarto é um perfeito prenúncio de que vem aí outra obra-prima. “Farewell, Mona Lisa” é um excelente reflexo do que é a banda hoje, ao variar a impetuosidade descontrolada com momentos de puro êxtase melodioso de proporções, não raras vezes, épicas. O álbum desenrola-se na fúria habitual destes, mas não vulgar, que nos põe pela milésima vez a cabeça a latejar e a desencadear reacções corporais pouco sãs, mas também esbarra-se como nunca antes na voz limpa e melosa do Greg Puciato e em segmentos do tipo “depois da tempestade, vem a bonança”, se bem que a ordem de acontecimentos nem sempre é essa. Apesar da maior variedade e variação intra-temas, o mesmo não se sente quando os comparamos entre eles. Há menos espaço para a experimentação, não há temas instrumentais e completamente desconectados da realidade ou de algum tipo de senso, embora existam nuances neste capítulo, como é o aparecimento do cada vez menos tímido piano em algumas músicas. É por isso um álbum mais homogéneo do que seria de esperar o que não é negativo nem positivo por si só.
A esquizofrenia de sons e de estados de alma com que o grupo me violenta continua, porém, bem como os momentos que me deixam de queixo caído, envoltos numa cápsula desta vez mais negra, estranha e sombria. Cada vez que ouvi o álbum, gostei mais dele, embora não me tenha impactado como os outros. No contexto da carreira dos TDEP acho-o menos inspirado, com menos momentos memoráveis, o que não é suficiente para me deixar com um amargo de boca que seria de todo injusto dada a grandeza musical que aqui se ouve.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

the dillinger escape plan - miss machine (2004)

Novo espaço! Para escrevermos sobre aqueles álbuns que veneramos, que sabemos de trás para a frente e que nos marcaram por uma razão ou por outra. É um exercício egocêntrico, recheado de hipérboles, obtusidades e de sensatez vesga, que nos vai dar a sua dose de gozo.

Estávamos numa altura em que lá ia eu, ainda com meia dúzia de pelos na cara, comprar religiosamente a Loud!, a única revista portuguesa sobre Metal e variantes (ainda hoje o faço, com mais pelos, mas menos devoto). A secção de críticas a álbuns recém-lançados era sempre lida com uma atenção redobrada e entusiasta. Os fóruns na net, os que tinha conhecimento, eram imberbes e algo incompletos, assim como os blogs, que em nada se comparam em número em relação aos dias de hoje. Este era, assim, um ponto de passagem útil no que tocava a conhecer novas bandas. Foi assim que me deparei com o “Miss Machine” de uns tais de The Dillinger Escape Plan. O escriba usava com propriedade o termo inovação, e mencionava um leque de estilos que iam, desde o rock, ao hardcore, passando pelo metal progressivo e atmosférico, pelo noise e também pelo jazz. Todos estes termos na mesma crítica parecia-me absurdo.
Mas não havia palavras que me preparassem para o que aí vinha. Foi um abalo nos meus princípios. Não havia regras, não havia um padrão, tudo acontecia ao mesmo tempo e a uma velocidade que me transcendia. Era intenso, violento, e sobretudo esquizofrénico. Fiquei azamboado à primeira, e nem sequer sabia muito bem dizer se tinha gostado ou não. À segunda já o sabia, à terceira fiquei a gostar mais um bocado, e assim sucessivamente, até começar a amá-lo. Comecei a ler nas entrelinhas e, aparte da violência desnudada, havia muitos pormenores a descobrir e um sentido melódico muito mais apurado do que seria de esperar.
Embora não seja, para mim, o melhor álbum deles (sou capaz de gostar mais do “Ire Works”), foi aquele que mais me marcou e que me “abriu” os ouvidos para outras coisas ditas menos convencionais. O artigo da Loud! dizia: “What are we supposed to do? Gostar, inevitavelmente. Porque é isso que se faz quando nos é apresentado um produto completo, capaz de elevar, acima do concebido, o conceito que o nosso humilde conhecimento tem de intensidade e música extrema”. Não o teria escrito melhor.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

stonecutters - christhammer

De volta a este canto depois de paragem bastante forçada, para escrever sobre um dos álbuns no qual ando a matutar ultimamente.
Os Stonecutters eram-me completamente desconhecidos. Mais rapidamente associava o nome a um certo episódio dos Simpsons (how geek is that?), do que a uma banda de música. Diz-se por aí que por alturas do lançamento deste álbum (há coisa de 5 meses), a banda não tinha editora, pelo que o dito foi self-released. Sim, cheira a underground por estes lados.
Isso acaba por se reflectir em muita coisa. O letring do logo podia muito bem ser um esboço de um qualquer puto de 15 anos, inspirado no thrash dos 80. A capa, rústica, a roçar o amadorismo. A produção, pouco famosa. A pose descomplexada e ainda virgem. Tudo isto incute ao grupo um charme que se tornou raro pela corrupção mental, ou simplesmente por força das circunstâncias. A música, essa, torna o álbum um atestado de ignorância a toda e qualquer editora que se preze dentro do género.
Não é fácil emprestar rótulos aos Stonecutters. Sludge, thrash, stoner, progressivo, psicadélico, take your pick. Pensem na agressividade e crueza de outrora de uns Mastodon ou de uns Kylesa e estarão lá perto. Também me deixo levar por influências mais ancestrais, quando dou por mim a relembrar Sabbath e logo a seguir a trautear melodias de Maiden. O disco é todo ele muito metal, se é que me faço entender, com uma atmosfera nublada, com letras sobre bestas mitológicas e pragas anticristãs, mas tal abordagem é feita de modo muito tradicional, como se fazia nos oitenta, o que acaba por torná-lo bastante divertido de se ouvir e funcionar bem entre amigos, copos e fumos.
Uma lição musical, mas também de honestidade, para muitas bandas que vão nesta onda do sludgemetalsouthernwhatever.

domingo, 25 de outubro de 2009

converge - axe to fall


Vou fazer como este álbum e entrar a pés juntos. O início deste animal é de um flagelamento torturante capaz de partir canelas e tudo o que venha por arrasto. Chega a ser esgotante como isto me mete a cabeça a andar à roda. A “Dark Horse”, para além de ser incansavelmente bruta, tem o riff mais orelhudo que alguma vez fizeram, o que torna a coisa um completo vício. Nunca a opção repeat fez tanto sentido. Sem lugar a silêncios, se alguma vez os Slayer fizessem parelha com os Converge, sairia alguma coisa parecida com a “Reap What You Sow”. Cilindramento sonoro. Logo a seguir, a “Axe To Fall” propõe-se destruir o pouco que resta, num exercício completamente louco, distorcido e claustrofóbico. Cuidado com o pit. Imagino pessoas a trepar paredes ao som disto. O quarto tema é também um massacre, embora com proporções menos épicas, mas suficientes para me por grogue à mesma. 9 minutos de desumanidade saudável para a alma.
A seguir, o virar de página. Parecendo que não, já lá vão 19 anos. A pica de fazer um álbum sempre a abrir e caótico de princípio a fim não pode ser a mesma. Algumas das experiências um tanto ou quanto estranhas do “No Heroes” ganham aqui (melhor) forma, e um papel muito mais preponderante do que se poderia esperar. O som começa a ficar arrastado, o ambiente mais brando e taciturno, o Bannon deixa apenas de berrar, e alguns apontamentos electrónicos aparecem no mapa, de tal forma que apanhei-me a olhar para o leitor só para confirmar de que se tratava de Converge.
Se estes não eram terrenos convergianos, passaram-no a ser. Admirável a forma como os temas nunca me deixam bocejar, e como têm uma força vincadamente própria e desigual. São as duas últimas músicas, a intimista “Cruel Bloom” e a tocante e bela “Wretched World”, com a participação de membros dos Neurosis e Genghis Tron respectivamente, o reflexo máximo de uma banda que sempre procurou interiormente fazer mais e ser mais. As participações especiais neste álbum alongam-se a elementos de Disfear, Cave In e Blacklisted, por exemplo, gente, no mínimo, respeitável.
Para quem não gosta nadinha dos Converge, este disco até se pode tornar audível. Para a maioria de quem gosta deles a sério, assimilar o lado mais abstracto e pensativo da banda vai ser só uma questão de hábito. Álbum gigante de uma banda a caminho da perpetuidade.

sábado, 17 de outubro de 2009

doomriders - darkness come alive


Foi amor à primeira audição quando descobri o estreante “Black Thunder”. Nesse álbum cabia de tudo. O feeling blues, a atitude punk/hardcore, o peso do doom, a fúria do d-beat e lá pelo meio umas melodias a fazer lembrar Maiden. Era incatalogável. Era Doomriders. A expectativa sobre o que viria a seguir era por isso mais que muita. Talvez por isso o primeiro contacto com este “Darkness Come Alive” deixe um amargo de boca. Porque nos cai logo a sensação que o disco, por muito que cresça, não consegue ter arcaboiço para suster o fardo criativo anterior.
Para começar aparecem de cara lavada, com uma produção bem mais limpinha e menos distorcida, o que, quanto a mim, não vai com o espírito cru e descomprometido da banda. Apesar de ainda o fazerem, deambulam menos entre estilos e procuram, agora, arranjar um fio condutor que cole pontas soltas e torne o álbum mais homogéneo. Se calhar é a isto que chamam maturidade. Não é que isto seja necessariamente negativo ou positivo. A importância está na forma.
Ao longo de 17 temas (alguns deles são simples interlúdios), há-os bons, mas é difícil encontrar um ou mais que se destaquem imediatamente. “Come Alive” está formatado para ser single. A meiguice e a aparente inocência do som contrastam com a lírica escura de sentido e acabam por tropeçar para um doom que os tipos não sabem fazer mal. O tema “Crooked Path” é o chamado “som do c…”. A música não é propriamente nova (fez parte do Split com Disfear do ano passado), mas aparece aqui com uma roupagem mais bonita e cuidada que retira mais do que acrescenta, mas não o suficiente para que deixe de ser o tema que mais curta no álbum. Sintomático. “Lions” é uma boa surpresa. Tem uma estrutura pouco comum, com o Nate a apregoar “don’t let these fuckers grind you down / don’t let these bastards kill your soul” e a dar a estas frases meio cliché um sentido revigorado. Se todos os momentos fossem como esta tripla, ou lá perto, estávamos muito bem. Não são. O problema é mais grave quando há temas que teimam em não sair da mediania e que acabam por nos passar completamente ao lado. Por esta não esperava eu.
Sendo curto e grosso, o álbum ouve-se bem, mas é daqueles que não vai passar muito tempo na minha playlist. Valha-nos a identidade da banda que permanece intocável e inigualável. O som continua a ser Doomriders de caras, mas apenas isso não é suficiente. Melhor sorte para a próxima.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

baroness - blue record

Chamem-me exagerado ou nomes piores mas este álbum transpira a clássico por todos os lados. Disseram definitivamente adeus à sombra mastodónica que certo pessoal, com algum desdém e palas de burro, não deixava passar em claro, como se a banda não valesse mais que isso. Desta vez não há desculpas. Sente-se que é Baroness e apenas Baroness. E vale bem a pena.
Este “Blue Record” é mais adocicado se o formos a comparar com anterior “Red Album”. A palavra acessível, embora perigosa, não fica, de todo, desenquadrada do espírito do disco. Simplificaram-se processos. Fizeram-se canções de se colar à pele, que nos apanham numa fracção de segundo, e a faceta progressiva do grupo, embora não se esconda totalmente, surge mais envergonhada do que o normal, com medo de interpelar momentos que, pela sua harmonia e espontaneidade, definitivamente não o merecem.
Cada tema é um luxo. Não há temas bonzinhos sequer. Até o tema acústico, “Steel That Sleeps The Eye”, entranha-se depois de estranhado. Arrisco dizer que a “Jake Leg” é das melhores músicas que ouvi desde há muito tempo. Aquele riff serpenteante baralha-me todo só para depois me dar o prazer de me reencontrar. As outras não andam longe. Parece que nos pegam ao colo e nos embalam para fora daqui, para mundos mais aconchegados e pacíficos. Por outro lado, a afectividade com propósitos mais sensuais e rockeiros traduz-se num hipnotismo de cariz quase lascivo e carnal. Pecado-prazer que não cansa. A transversalidade do som que fazem é um trunfo em extinção nestes dias. Não há momentos pejados de agressividade, nem momentos muito maricas (vá, excluindo a balada atrás referida). Não há extremos. Só uma classe extrema. Vão à confiança. De longe, das melhores coisinhas que ouvi este ano.