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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

stonecutters - christhammer

De volta a este canto depois de paragem bastante forçada, para escrever sobre um dos álbuns no qual ando a matutar ultimamente.
Os Stonecutters eram-me completamente desconhecidos. Mais rapidamente associava o nome a um certo episódio dos Simpsons (how geek is that?), do que a uma banda de música. Diz-se por aí que por alturas do lançamento deste álbum (há coisa de 5 meses), a banda não tinha editora, pelo que o dito foi self-released. Sim, cheira a underground por estes lados.
Isso acaba por se reflectir em muita coisa. O letring do logo podia muito bem ser um esboço de um qualquer puto de 15 anos, inspirado no thrash dos 80. A capa, rústica, a roçar o amadorismo. A produção, pouco famosa. A pose descomplexada e ainda virgem. Tudo isto incute ao grupo um charme que se tornou raro pela corrupção mental, ou simplesmente por força das circunstâncias. A música, essa, torna o álbum um atestado de ignorância a toda e qualquer editora que se preze dentro do género.
Não é fácil emprestar rótulos aos Stonecutters. Sludge, thrash, stoner, progressivo, psicadélico, take your pick. Pensem na agressividade e crueza de outrora de uns Mastodon ou de uns Kylesa e estarão lá perto. Também me deixo levar por influências mais ancestrais, quando dou por mim a relembrar Sabbath e logo a seguir a trautear melodias de Maiden. O disco é todo ele muito metal, se é que me faço entender, com uma atmosfera nublada, com letras sobre bestas mitológicas e pragas anticristãs, mas tal abordagem é feita de modo muito tradicional, como se fazia nos oitenta, o que acaba por torná-lo bastante divertido de se ouvir e funcionar bem entre amigos, copos e fumos.
Uma lição musical, mas também de honestidade, para muitas bandas que vão nesta onda do sludgemetalsouthernwhatever.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

eagle twin – the unkindness of crows


Boa surpresa estes Eagle Twin. Dois tipos, Gentrey Densley (ex-Iceburn e Ascend) e Tyler Smith, arquitectam aqui um espaço do mais hostil e sufocante que ouvi ultimamente. Por entre tonalidades cruas e obscuras surge quase sempre por atacado um espírito declaradamente Blues e que dá a este registo de estreia um tónico diferente e especial.
Ouvir isto é comer areia desértica às colheradas. À volta, paisagens áridas, turbulentas, podres, em todo o seu esplendor, bafejadas pela noite e por um prenúncio de solidão e agonia macabra. Sobre esta plataforma atmosférica estende-se um amontoado impressionante de diferentes estilos e estados de alma, que se entrelaçam de forma bastante natural e bem conseguida. Riffs que lembram Sunn O))) descarrilam para um Sludge putrefacto pelo respirar de ares malignos, e para um Doom de uma lentidão que atinge níveis desesperantes e abrasadores. Mais interessante que a miscelânea de influências que só por si é, para mim, brutal, é a maneira como ela é executada e construída. Logo à partida o tom de guitarra remete-nos para ambiências Stoner de uns Kyuss, e quando damos por ela acabamos por pernoitar em abismos com perfume a Blues. A partilhar o momento, devaneios de uma voz ríspida e carrancuda que vai gritando lamúrias do Demo. Os temas apresentam-se de tal modo despretensiosos e quase displicentes que não raras vezes parece que estamos a ouvir uma qualquer jam session, com muito fumo à mistura. Adorável.

terça-feira, 30 de junho de 2009

coalesce – ox


Lodo. Não estão menos de 35 graus, e o ar parece tornar-se rarefeito, a ponto da respiração exigir algum esforço. De forma completamente aleatória, socos e biqueiros vêm a mim de onde e quando menos espero. Dores lancinantes e o sangue a prender-se na garganta. Este álbum é um sufoco que me deixa abismado.

Os Coalesce já levam uns bons 15 anos disto, embora grande parte deles não tenham sido propriamente produtivos. Por entre separações, regressos e mudanças de line-up, este “Ox” é apenas o quarto longa-duração da carreira e o primeiro em 10 anos, sendo que 3 deles foram de total inactividade.
Pioneiros no toca a juntar hardcore com metal, mas de uma maneira única, arrisco dizer, este novo álbum traz-nos uma raiva labiríntica misturado com um Sludge tão cru e seco que dói. O primeiro tema, “The Plot Against My Love”, é um bom exemplo do que vos falo e um início perfeito. As músicas seguem tudo menos uma estrutura linear. Constantes mudanças de ritmo, como se toda a banda padecesse de algum distúrbio nervoso, fazem de mim gato-sapato. A distorção não é meiga com ninguém, a roçar às vezes o Noisecore, é bem capaz de desfazer cérebros em papa. O baixo, meus amigos, o baixo! Quase tão perceptível quanto a guitarra, escava uma vala só para si. Há que esperar o inesperado nestes 35 minutos, a ponto de termos dois temas instrumentais e acústicos, cirurgicamente arrumados no corrupio de fúria. Também influências Country e Blues, bem visíveis no início da “Wild Ox Moan”, estão um pouco por todo o lado. Quase todos os temas têm algo de relevante a acrescentar, e apenas isso, diz bem do monstro que este álbum é.

“Ox” consegue ser um bafo de ar quente e sujo, e ao mesmo tempo, uma lufada de ar fresco no espectro da música pesada. O que não deixa de ser uma continuação lógica do que faziam há 10 anos atrás, é ainda, nos dias de correm, atípico e original. Se esta review não foi suficiente para vos fazer ouvir isto, talvez o 10/10 da Decibel o faça. Regresso do ano.

terça-feira, 12 de maio de 2009

men eater – vendaval


Posso dizer, com mais ou menos certeza, que era este o lançamento nacional que mais ansiava pôr os ouvidos em cima desde há uns bons meses para cá. “Hellstone” foi, e é, monstro. Surpresa que levou muito boa gente a considerar o álbum um marco nos tempos que correm, no que diz respeito à nossa cena underground. Fasquia demasiado alta? Talvez. Neste “Vendaval” os Men Eater contornam-na não por cima, mas pelo lado.

Isto porque que não há muito para comparar entre este segundo registo e o primeiro. Se no “Hellstone” cuspia poeira quando o acabava de ouvir, aqui a banda aparece de cara lavada, mais vistosa, e, em certa medida, menos pesada. Expoente máximo deste asseio que vos falo é a voz do Miguel, mais melódica e perceptível, ao contrário dos tons crus a que me habituei. Franzi o sobrolho.
Nada de grave. O álbum começa muito bem. “First Season” é um sem-vergonha. Avança confiante, consegue ser rude e voluptuoso, ora com riffs cortantes, ora com back vocals que mais parecem miminhos. É o Rock como se quer. “Man Hates Space” torna-se um assombro em menos de nada. Buracos negros puxam-nos para headbangs balanceados e cantorias desmedidas. Last chance, last day, all that’s left taken away. Sintonia perfeita. Dois minutos de Doom pesadão separam este tema de “Drunk Flies Drugged Souls”, coisa inspiradíssima de princípio a fim, onde se desmarca uma melodia do mais sonante que aqui se pode ouvir e que gosta de se lamentar entre momentos calmos e outros de explosão.
Estamos a meio do álbum e perde-se algum fulgor. Chego a dispersar-me a certa altura, talvez ainda abananado com o que ouvi antes. Não que os temas estejam lá para “encher chouriços”, longe disso, mas não conseguem partilhar do mesmo interesse dos seus antecedentes. Ainda assim, e ainda a tempo, chega-nos mais uma beldade chamada “Medusa”, que mais parece um qualquer rito a chamar, e a precaver, ventos e tempestades que se traduzem num desfile de riffs muito bem apessoados. Finalmente “Dead at Sea”, e uma onda sonora a fazer lembrar Doomriders que para mim cai que nem ginjas.
Trivialidade: Makoto Yagyu dos If Lucy Fell continua ao comando da produção. Curiosidade: Valient Himself dos Valient Thorr tem uma pequena participação na “Man Hates Space”.

Descomplexado e objectivo, este “Vendaval” dá-nos menos Sludge para a carola e mais Rock para abanar o corpo. Embora não tenha aquele travo sujo que eu tanto gosto e que achei peça fundamental no “Hellstone”, a banda mantém intacta uma identidade que a si naturalmente lhe pertence e que se reconhece a léguas. E é esse o maior trunfo destes rapazes.

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terça-feira, 24 de março de 2009

16 - bridges to burn


“Experimenta e vê se te faz clique lá dentro!” – Foi o que me disseram quando me aconselharam o Myspace desta banda. O nome da mesma, por si só, deixou-me curioso. Agora, aqui estou eu, a jogar bem fora do campo a que me habituei, enfrentando a desafiante tarefa de vos apresentar o mais recente álbum destes senhores. Do outro lado do Atlântico chega-nos “Bridges to Burn” dos 16. Talvez por não estar habituado ao tipo de som, não fez o clique na primeira vez que ouvi, mas fez na segunda, na terceira, e nas muitas outras que se seguiram.

Levando já 17 anos de carreira, antes de “Bridges to Burn”, os 16 contavam já com 4 full-length álbuns e para cima de 10 EP’s no seu reportório. Depois da separação da banda que teve lugar em 2003 e durou até 2007, os 16 parecem ter esquecido as divergências pessoais, e de olhos postos no futuro, apresentam-se agora como uma banda madura e com vontade de continuar o bom trabalho que haviam feito durante os anos 90. Prova disso, foi o lançamento deste álbum, visto unanimemente pela crítica, como o trabalho mais consistente da banda até à data.

A julgar pela qualidade do álbum, ninguém diria que a banda esteve parada durante os últimos anos. Na sua essência, o som que nos é oferecido, enquadra-se dentro do Sludge, que desde sempre caracterizou a banda, salpicado aqui e ali com alguma sonoridade Hardcore. Guitarras de som refinadamente sujo, que remetem para o Southern Rock, períodos de impiedoso Breakdown, e uma voz desesperadamente agressiva, que tanto lança gritos mais Hardcore, como se deixa arrastar pelo pesado ambiente que a guitarra e baixo criam. Tudo isto misturado, cria a receita para um álbum de qualidade superior.
As faixas estão assentes numa construção e numa estrutura, que na sua maioria, não variam muito ao longo do álbum, o que, após sucessivas audições do mesmo, poderá tornar-se algo cansativo. Nada de demasiado grave. Ponto comum entre os 12 temas é a genialidade dos riffs. Uns atrás dos outros, pesados e sujos, os riffs da guitarra embalam-nos num inevitável headbang, que só tem descanso nos pequenos intervalos entre cada faixa. Fiquei imediatamente apaixonado pela guitarra em "Man Interrupted".
O arrastar das músicas deixa vir ao de cimo uma temática que é constante durante todo o álbum. O pessimismo, negativismo e a revolta perante os falhanços da vida, são por demais evidentes na composição das letras, que têm o mérito de conseguir enquadrar o nosso estado de espírito no ambiente do álbum. Se estão radiantes, excessivamente animados ou felizes, escolham outro momento para desfrutar deste excelente pedaço de música.

Apropriando-me da palavra de outros, diria que este é um álbum que serve de perfeita introdução à música da banda, e que ao mesmo tempo satisfaz a sede de algo novo, por parte daqueles que já a acompanhavam. Nota final - 16 estrelas.

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domingo, 15 de março de 2009

kylesa - static tensions



Os tempos mais agressivos e crus dos Kylesa já lá vão. Trocaram-se vozes rasgadas por outras mais melódicas e simpáticas, e a rebeldia própria da juventude, ainda que presente, deixou espaço para um estado de espírito mais circunspecto e maduro. Ok, para muitos, isto é condição suficiente para perderem a vontade de os ouvir. Fazem mal.

Os Kylesa são uma banda suis generis logo à partida. Dois vocalistas, um de cada sexo, e dois bateristas, são sempre pontos que suscitam alguma curiosidade em quem os vai ouvir pela primeira vez, por mais não seja para saber como tudo encaixa. As peculiaridades estendem-se à sua personalidade musical bem vincada e própria.
O Sludge, que sempre serviu de base sonora para estes norte-americanos, surge neste “Static Tensions” mais refinado e com um outro encanto, mais rockeiro e psicadélico. O primeiro tema, “Scapegoat” é um pouco o espelho do que virá a ser o resto do álbum. O som sujo e hostil das guitarras é contraposto com refrões que chegam a roçar o catchy. Nos interlúdios, ritmos tribais afeiçoados por duas baterias, e momentos mais atmosféricos juntam-se à festa. “Said and Done” é um daqueles temas monstros que nos agarram pelo colarinho ao primeiro riff e nos arrastam pelo chão ao longo de quatro minutos. Muito bem construída está a “Nature’s Predators”, que vagueia entre passagens bem sludgy e outras mais progressivas que a espaços fazem lembrar Mastodon. O álbum termina com uma tripla de músicas brilhantes nas quais se pode sentir a aragem abrasadora do rock sulista, também um pouco presente em todo o disco, com destaque natural para a “Only One”.

O que é aqui ouvido é tão simples e, ao mesmo tempo, tão apelativo que nos confunde a certa altura, na medida em que pensamos como podem estas duas características juntas estenderem-se pelo tempo. Mais, o álbum mostra-se consistente ao longo do seu todo. Não consigo descortinar tempos mortos ou passagens menos interessantes que pudessem levantar a minha voz de desagrado. Outra das suas virtudes mora no facto de poder agradar a várias tribos musicais, dada a panóplia de influências aqui amontoadas. Façam-vos o favor de ouvir.